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domingo, 4 de outubro de 2009

Conto: O Despertar de Edward Hartt

Na noite anterior, Edward Hartt saíra com seus amigos. Beberam algumas cervejas enquanto conversaram sobre futebol, garotas e cinema. E a vida se mostrou boa.

Na manhã que se seguiu aquele adorável bem estar, o mundo de Edward virou ao avesso e o inferno tomou a realidade num pesadelo sangrento.

Correu através da rua para salvar sua própria vida enquanto viu sua vizinhança tomada pelo caos: Pessoas corriam, gritavam, urravam e gemiam. Atacavam umas as outras para morder-se a arrancar pedaços razoáveis de sua carne... E nunca ficavam satisfeitas, e perseguiam-se mais ainda em desespero. Alguns eram perseguidores, outros fugitivos.

Enquanto cuidava de seus próprios assuntos, a preservação da própria vida, testemunhou o ataque a uma garota: viu suas vestes serem rasgadas e sua pele ser dilacerada por dentes e unhas de um grupo de pessoas que se amontoaram sobre ela.

Seu coração disparou tomado de culpa e vergonha por não conseguir deter sua corrida para ajudá-la. Sentiu náusea e ânsia de vômito. Autocontrole não era uma coisa possível de se conseguir naquele instante.

Catherine era sua vizinha. Amiga de infância e paixão secreta desde o inicio da puberdade.

Agora Catherine estava seminua, com as roupas aos farrapos e ensangüentada enquanto nacos de sua carne eram arrancados à mordidas por aquelas feras que em algum momento de suas vidas foram pessoas.

Eram feras mortas. Pois as que atacavam eram as que foram atacadas anteriormente. E as que morriam se levantavam para matar a pessoa sã mais próxima. Os Zumbis estavam soltos na Terra como no filme de horror mais real já realizado.

E Catherine fora morta. Assim como seus pais e irmã. E parte de Edward Hartt morreu com todos eles naquele dia fatídico.

No entanto, apesar de sua alma doer desde os fios de cabelo até os ossos, revirando cada órgão interno em furor enquanto viu cada um destes entes queridos serem assassinados, não teve opção alguma além da fuga.

Foi dominado pelo medo.

Chegou realmente a se perguntar se seria medo o que lhe acometera. A adrenalina que lhe tomou as ações movendo o sangue em suas veias seria mesmo simples fruto do medo?

Ou se tratou do mais puro instinto de sobrevivência?

Achou a resposta! Sobrevivência afinal era o que contava e era seu único objetivo restante: Tinha de sobreviver! Fugir e permanecer vivo!

Não se tratou de covardia e sim instinto!

Em meio ao caos daquele pesadelo desperto onde pessoas, vivas ou mortas, corriam para devorar ou serem devoradas, Edward encontrou uma garota próxima a um carro vermelho. Ela chorava e soluçava enquanto tentava acertar a chave para abrir o veículo.

“Ela se parece com Catherine” – Pensou.

Mas Edward tinha que sobreviver. Tinha que fugir e não havia mais tempo algum!

Empurrou a garota com violência e derrubou-a no chão. Tentou roubar-lhe as chaves, mas ela as segurava como se representassem tudo que sua vida dependia para se manter.

E dependia mesmo. Para Edward também.

Com seu outro punho acertou um soco no rosto da garota fazendo-a largar as chaves. Apanhou-as e rapidamente entrou no carro dando a partida logo em seguida.

Ele deixou a garota para trás, observou-a pelo retrovisor e viu que permanecera no chão. Chorando, soluçando e amaldiçoando Edward até que uma das criaturas virou-se para agarrá-la fazendo-a berrar um grito agudo e interrompido pela dor da primeira mordida em seu pescoço.

Curiosamente, Edward despediu-se secretamente de Catherine mais uma vez.

Enquanto dirigia insanamente pela rua abarrotada de gente correndo, atropelou várias pessoas. Não tinha como saber se estavam realmente vivas.

Entendendo-se por “vivas” antes da colisão com o carro em alta velocidade enquanto corriam em frenesi pela rua. Depois do choque, não fazia qualquer diferença. Pessoas mortas eram uma constante em progressão geométrica.

Parte de Edward Hartt também morreu naquele dia, mas não como toda aquela gente.

Por que Edward Hartt prometera a si mesmo que iria sobreviver.

E de fato, sobreviveu para morrer por completo num outro dia...

- MWXS (Terra Devastada)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Conto - A Barca de Caronte


O chumbo voava no corredor do hospital enquanto a horda trôpega avançava mais e mais... Passando por cima de corpos que caiam alvejados, macas e cadeiras hospitalares que há muito foram deixadas espalhadas durante o início do fim de tudo. Já havia sangue espalhado pelas paredes e chão bem antes daquelas figuras chegarem lá.
Cada metro conquistado pelos mortos vivos significava que os momentos finais na vida de Álvaro Ramirez estavam chegando próximos, mas ele estava ali para lutar até o final... Ganhando tempo para a fuga da doutora Naomi e o resto da Equipe Caronte, um grupo de “badboys” que não tinham mais nada a perder, mas queriam ajudar da forma que podiam: “localizar e destruir”.
Seu fuzil cuspia o restante da munição decapitando e desmembrando: a carne dos zumbis era dilacerada, mas pouco sangue ainda era jorrado daquilo que antes eram pessoas como eu e você, já haviam morrido há tempos e o sangue de seus corpos já estava bastante coagulado adquirindo uma bizarra viscosidade. Não existia medo naquelas coisas, nem consciência ou qualquer sensação a não ser a fome – “Não podiam nem ser chamados de animais!" – pensou Álvaro.
Mas a turba avançava, embora as rajadas da arma de fogo os retardassem, não hesitavam, apenas estendiam os braços decrépitos e abriam as bocarras apodrecidas em busca da carne. A carne de Álvaro! Súbito, ao invés do barulho ensurdecedor de cartuchos explodindo ouviu-se sonoros “clicks-clicks”.
O jogo estava acabado.
Álvaro não tinha muito tempo para pensar, havia aprendido a agir sob reflexo há tempos: apenas pegou sua faca e arremessou no último zumbi que iria ter a oportunidade de abater. A faca foi cravada em cheio na testa do morto vivo, fazendo-o cair como se tivesse enfim percebido seu destino manifesto – “Está morto, c@&@%$#*!!!” – O sobrevivente olha para o lado, abre a primeira porta próxima antes de ser quase apanhado por mãos e dentes... E então fica tudo escuro. Ainda sob ato reflexo tateia rapidamente até encontrar a tranca da porta.
Entrara em uma pequena dispensa de materiais de limpeza, pelo que percebeu pelo cheiro e pelo tamanho diminuto ao qual agora ficara confinado, um pequeno cubículo de 1 metro quadrado. Os mortos continuavam batendo, arranhando com o resto de unhas que ainda possuíam, gemendo...
Aquilo era o beco sem saída – “A barca do Ceifeiro finalmente o conduziu a outra margem do rio” – como diziam em seu grupo sobre os membros que morriam: A Equipe Caronte são homens e mulheres que velejam na barca do inferno, e sabem que um dia sua viagem simplesmente chega ao fim.
Apenas sentou na escuridão. Põs sua cabeça entre os joelhos, e esperou... Não havia mais nada. A engenheira química quem vieram resgatar já estava a salvo, sua missão foi completada com sucesso. Entre o vazio e a algazarra insana do outro lado da porta: sempre a um instante de despedaçar a porta que o separava dos zumbis. Álvaro percebeu com o tempo que não era tão forte quanto imaginava...
A pressão da morte iminente já estava levando-o aos limites da sanidade. Era uma questão de escolha: morrer de inanição ou entregar-se aquelas coisas e virar mais um a andar entre os mortos. A segunda escolha não era uma opção. Em meio às sombras, pensou que beber o material de limpeza poderia condená-lo a agonizar durante horas ante de finalmente morrer.
E concluiu que talvez tenha se livrado de sua própria faca cedo demais...
-MWXS (Terra Devastada)
PS: Agradecimentos a John Bogéa pela ilustração.