domingo, 17 de maio de 2009

Entre Álcool, Suor e Cinzas (conto)

MIKE WEVANNE
Dou uma tragada forte no cigarro e sinto a fumaça deslizar docemente para meus pulmões... Olho em volta e percebo a mulher sensual sentada no bar. Estamos no bar Last Chance Jazz & Blues e esse não é exatamente um lugar para encontrar mulheres de boa família, mas tudo bem. Não sou exatamente o tipo de cara que procura companhia assim.
Ela usa vestido e batom vermelhos, sua linda pele morena exala algo indefinido, uma confusão ímpar entre paixão e luxúria. Seu olhar: dois punhais prontos para serem lançados sobre a primeira vítima noturna. Nesta noite alguém esta vestida para matar.
Aquelas gemas de tons castanhos logo encontram seu alvo e ela percebe que tinha despertado o meu interesse, o sorriso que exibiu em seguida expressou sua personalidade desinibida. Eu não esperava outro tipo de reação.
E excitação do momento, somada a um gole de uísque, fazem meu sangue esquentar, embora a presença do gelo seja supérflua dada as circunstâncias... Eu levanto e caminho em direção ao bar. Quando me aproximo ela tenta disfarçar como se nada estivesse acontecendo e de fato, nada havia acontecido. Ainda.
Enquanto peço mais uma dose de uísque, dupla na verdade, apanho um cigarro e em seguida estendo o maço na direção dela. - "Aceita?" - Olho diretamente para os seus olhos e deixo a minha intenção bem clara - “Olá, meu nome é Jack” - Ela mantém a serenidade enquanto um pequeno sorriso escapa num dos cantos de seus lábios vermelhos - "Jack?" - Indaga num tom debochado. Eu devolvo o sorriso.
"Meu pai lia muitas histórias... O velho dizia que Jack é nome de heroi" - Respondo ainda oferecendo o cigarro e tentando manter o jogo velado que já iniciara entre nós dois - "Sou Jack Cochrane e você é...".
Ela aceita o cigarro. - "Lisa. Meu nome é Lisa, Sr. Heroi. Mas lamento não ser alguém que ainda possa ser salva".
Ela aceita o cigarro. Aceita o uísque. Aceita ir ao meu apartamento.
Durante aquela noite, entre lençóis suados, garrafas vazias e pontas de cigarros apagados, dois desconhecidos encontraram uma chama de prazer numa cidade escura, fria e violenta.
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Conto - A Barca de Caronte

O chumbo voava no corredor do hospital enquanto a horda trôpega avançava mais e mais... Passando por cima de corpos que caiam alvejados, macas e cadeiras hospitalares que há muito foram deixadas espalhadas durante o início do fim de tudo. Já havia sangue espalhado pelas paredes e chão bem antes daquelas figuras chegarem lá.
Cada metro conquistado pelos mortos vivos significava que os momentos finais na vida de Álvaro Ramirez estavam chegando próximos, mas ele estava ali para lutar até o final... Ganhando tempo para a fuga da doutora Naomi e o resto da Equipe Caronte, um grupo de “badboys” que não tinham mais nada a perder, mas queriam ajudar da forma que podiam: “localizar e destruir”.
Seu fuzil cuspia o restante da munição decapitando e desmembrando: a carne dos zumbis era dilacerada, mas pouco sangue ainda era jorrado daquilo que antes eram pessoas como eu e você, já haviam morrido há tempos e o sangue de seus corpos já estava bastante coagulado adquirindo uma bizarra viscosidade. Não existia medo naquelas coisas, nem consciência ou qualquer sensação a não ser a fome – “Não podiam nem ser chamados de animais!" – pensou Álvaro.
Mas a turba avançava, embora as rajadas da arma de fogo os retardassem, não hesitavam, apenas estendiam os braços decrépitos e abriam as bocarras apodrecidas em busca da carne. A carne de Álvaro! Súbito, ao invés do barulho ensurdecedor de cartuchos explodindo ouviu-se sonoros “clicks-clicks”.
O jogo estava acabado.
Álvaro não tinha muito tempo para pensar, havia aprendido a agir sob reflexo há tempos: apenas pegou sua faca e arremessou no último zumbi que iria ter a oportunidade de abater. A faca foi cravada em cheio na testa do morto vivo, fazendo-o cair como se tivesse enfim percebido seu destino manifesto – “Está morto, c@&@%$#*!!!” – O sobrevivente olha para o lado, abre a primeira porta próxima antes de ser quase apanhado por mãos e dentes... E então fica tudo escuro. Ainda sob ato reflexo tateia rapidamente até encontrar a tranca da porta.
Entrara em uma pequena dispensa de materiais de limpeza, pelo que percebeu pelo cheiro e pelo tamanho diminuto ao qual agora ficara confinado, um pequeno cubículo de 1 metro quadrado. Os mortos continuavam batendo, arranhando com o resto de unhas que ainda possuíam, gemendo...
Aquilo era o beco sem saída – “A barca do Ceifeiro finalmente o conduziu a outra margem do rio” – como diziam em seu grupo sobre os membros que morriam: A Equipe Caronte são homens e mulheres que velejam na barca do inferno, e sabem que um dia sua viagem simplesmente chega ao fim.
Apenas sentou na escuridão. Põs sua cabeça entre os joelhos, e esperou... Não havia mais nada. A engenheira química quem vieram resgatar já estava a salvo, sua missão foi completada com sucesso. Entre o vazio e a algazarra insana do outro lado da porta: sempre a um instante de despedaçar a porta que o separava dos zumbis. Álvaro percebeu com o tempo que não era tão forte quanto imaginava...
A pressão da morte iminente já estava levando-o aos limites da sanidade. Era uma questão de escolha: morrer de inanição ou entregar-se aquelas coisas e virar mais um a andar entre os mortos. A segunda escolha não era uma opção. Em meio às sombras, pensou que beber o material de limpeza poderia condená-lo a agonizar durante horas ante de finalmente morrer.
E concluiu que talvez tenha se livrado de sua própria faca cedo demais...
-MWXS (Terra Devastada)
PS: Agradecimentos a John Bogéa pela ilustração.